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Grifo-pedrês, ou grifo-de-rüppell, ou abutre-de-rüppell
Gyps rueppellii
Tejo Internacional, Rio Tejo, Portugal
2008-05-10
Há grifos que – imagine-se! – gostam de se armar em estrelas de Hollywood. O gyps rueppellii, por exemplo, e mais que exemplo, sobretudo. Vê-se-lhe a mania logo na indumentária. Apesar de ser um abutre muito parecido com o “nosso” grifo – o gyps fulvus, que já pousou no Bzz em tempos – distingue-se facilmente pelo trajar. Em lugar da sobriedade da samarra alentejana do nosso já conhecido, este seu primo pedrês opta por um manto sarapintado, digno de honrar as costas de Próspero, ou mesmo de Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore.
A ostentação continua pelo nome. Por muito rara que seja a sua presença em Portugal, o bicho consegue ter três designações no nosso vernáculo, qual delas a mais sonante: grifo-pedrês, ou grifo-de-rüppell, ou ainda abutre-de-rüppell. (Isto, se pudermos chamar vernáculos a nomes que têm a grandeza de um Rüppell lá dentro, esse distinto naturalista alemão do século XIX).
A sua vocação estelar é tão acentuada, que é a ave com o mais alto voo devidamente registado: aconteceu nos céus da Costa do Marfim, e materializou-se em 1973 numa sua azarada colisão com uma aeronave, a mais de 11.000 metros de altitude. Mas o cúmulo ocorreu este ano em Portugal, numa investigação dedicada ao nosso grifo “comum”. Parte de leão do propósito do projecto consistia em acompanhar, com imagens recebidas em tempo real, a nidificação deste abutre. Para o efeito, cientistas-trepadores aventuraram-se pelas escarpas da zona do Tejo Internacional e instalaram uma câmara num ninho em anos anteriores explorado por esta espécie. Pois bem, quem foi que foi “logo” visitar dito o ninho com a câmara, quem foi? Claro, um grifo-de-rüppell, quiçá o único em luso território este ano. Sempre é preciso ter uma lata!
Com transmissão na imensa rede, o projecto foi um êxito que terá ultrapassado os «Big Brother» um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito e nove, e ainda os congéneres «Famosos» um, dois, três, quatro, etc., por aí fora. Aliás, continua a decorrer, já há grifinho, e ao leitor do Bzz que não tenha o voyeurismo de lá ir espreitar, vão-lhe crescer três borbulhas no nariz, todas feias e ao mesmo tempo. .
O grifo-pedrês é uma ave africana, vivendo sobretudo pelas margens sul do Sahel, preferindo, ora a montanha, ora as savanas mais áridas, chegando a aventurar-se pelas bordas do Sahara. Todavia, as suas deambulações trazem por vezes um ou outro indivíduo até à Ibéria, única região da Europa onde conheço ter sido a espécie observada. Encontro num documento de rigor não confirmado a referência a 24 registos na península entre 1992 e 2003. Por que vem até cá, não sei. Talvez esteja nos seus hábitos ancestrais volta e meia dar um salto ao território-mor de Saramago – quiçá à procura de uma boa história onde protagonizar um filme de aventuras. Ou talvez porque cada vez mais lhe é negado viver nos seus territórios africanos.
Com efeito, em países como o Mali, Sudão, Burkina Faso e Níger, passou de abundante para quase ausente. Além da predação humana aos ninhos para fins de entretenimento comercial – entre outros mimos típicos na nossa espécie – um dos principais culpados do declínio da população foi um anti-inflamatório de uso veterinário, o Diclofenac. O gyps rueppellii não o suporta, morrendo ao ingeri-lo a partir de carcaças de gado com este medicadas, prática usual em alguns países que escolheu para habitar. Feitas as contas, o risco de extinção deste abutre está hoje reavaliado pela BirdLife International no já inquietante near threatened. E não fora a existência de populações mais estáveis e protegidas em países como a Gâmbia e a Etiópia, não sei se esta classificação não seria ainda mais severa.
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Seja como for, a aposta do visitante «português» não parece das mais promissoras. O facto é que todas as espécies de abutres luso-residentes atravessam sérias dificuldades de sobrevivência. A encefalopatia espongiforme bovina levou a legislação que obriga à recolha das carcaças do gado que morre pelos campos. Assim, e fora alguns veados e javalis, pouco sobra para aves necrófagas sobreviverem. Como contingência, foram inventados os «alimentadores»: uns locais de acesso restrito, sob regulamento da UE, destinados a fornecerem alimentação a estas aves. (Imagino que não seja Whiskas, mas as tais carcaças depois de revistas e aprovadas por veterinários). Só que há duas chatices. A primeira é que faz depender a sobrevivência dos abutres de um acto artificial, que incluirá orçamentos e demais peripécias administrativas votadas à complicação. O segundo é que, em território nacional, a legislação só prevê a utilização destes alimentadores para quatro espécies: o grifo comum, o abutre-preto, o britango e a águia-real. Será que se aparecer por lá o abutre-de-rüppell para tomar o pequeno-almoço, é multado pela ASAE?
Finalmente, e porque o post já vai longo, quero concluir explicando porque raio as fotografias aqui expostas estão tão mazinhas. (Ora deixa-me cá arranjar uma desculpa...) Bom, é foram mesmo um improviso à paparazzi. Ia num barquinho a motor, a chover escuro e Tejo acima, quando o abutre do senhor Rüppell aparece de repente, ups!, olha-ali-olha-ali-olha-ali! – a modos que foi clique e já está. Não houve tempo para nada: nem exposições compensadas, nem aproximações furtivas, nem rezas aos santinhos, nicles. Foi sem entrevista de charme, sem marcação com o agente artístico, sem acordos quanto ao lado mais fotogénico do bico. Pode ser que para o ano apareça outro e que… Mas, más ou não as fotos, o Bzz também é peneirento, e se viu um grifo-de-rüppell, tinha que deixar aqui testemunho! Ora essa!
