Quarta-feira, Outubro 15, 2008

O Aviso do Grande Skua



Moleiro-grande (ou alcaide)

Stercocarius skua

Algures no mar entre St Margaret's Hope e Gills Bay, arquipélago das Órcades, Escócia

2008-06-10

(Foto gentilmente roubada à 1000i)



O AVISO DO GRANDE SKUA

Antes de tu chegares, foi meu nome inventado

Por gaivotas famintas a guinchar de terror.

E não só o meu nome, o meu bico e o pânico

Eram o mesmo sangue na noite das pardelas.

 

Antes de tu chegares, um deus velho pintou-me

As penas cor de terra, a cor férrea das mães.

E eu, sem que ele notasse, deitei neve nas asas

Para elas ficarem com o trovão das montanhas.

 

Antes de tu chegares, era a mim quem o diabo

Convidava a jantar. Hoje é a ti, muito bem…

Mas sabe que fui eu quem lhe ensinou o jogo

Dos dados em que as pintas são olhos de patolas.

 

Depois de tu chegares… Não, nem a ti eu temo:

Se me vieres ao ninho, ai furo-te a cabeça!



Já foi o latim, já foi o francês, hoje é o English. É mesmo assim: quando as pessoas querem dizer coisas sábias e importantes, acrescentam palavras em inglês ao discurso. De preferência, escolhem uma daquelas acabadas em ing e boçam-na ao final do parágrafo com dentuça a condizer. Blá, blá, blá, downsizing – e fazem o sorriso grave de uma beringela recheada com miolos de galinha. Blá, blá, blá, restyling – e chiam em risada aguda, enquanto rodopiam o mindinho direito para cima, e abrindo tanto os olhos que as moscas até fogem. Blá, blá, blá, e tal e coisa e coisa e tal e, truca, veryveryimportanticializing – e etc. por aí fora.

 

A coisa irrita-me. Sempre que a presencio, logo lamento não dispor de uma pistola de pozinhos de comichão – pum, já estás, vais ficar aí numa de coçatializing até à hora do lanche. Só que – para vergonha minha – também já me aconteceu deixar fugir a boca para a inglesite. Foi com os sacanas dos moleiros. Não é que não goste do vocábulo «moleiro», mas confesso, prefiro o termo inglês para estas aves: skua. Ou melhor escrevendo: SKUA!!!

 

Digo em meu abono que estou convencido que esta palavra não foi inventada por ingleses, nem por nenhum homem, mas por gaivotas. Imaginemos ao mar largo um bando de argênteas baloiçando-se em ondas suaves, azuis e alentejanas. De repente, um moleiro imenso e canalha pica sobre elas. As pobres respigam em pânico como gotas de um lago sobre o qual caísse uma locomotiva. E que gritam elas enquanto fogem? SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! Pois…



Um bom local para fazer observação de aves marinhas é a bordo de um ferry. Não só têm bar e WC, como é possível aceder-se a um ponto elevado da embarcação e observá-las em voo visto de cima. Quando calha a ser um moleiro-grande (também dito alcaide) é uma festa. Primeiro, por que são grandes, vêem-se bem. Segundo, porque nos arrepiamos com as penas brancas que lhes garreiam a folha superior das asas. E terceiro, porque é uma variante. Em lugar de temermos pela sorte da ave se o navio lhe embater, tememos pela sorte do navio se o moleiro se chatear.

 

Os moleiros escolhem ilhas pouco frequentadas para nidificar. Todavia, ao contrário das outras aves marinhas, preferem ter ninho, não nos recifes, mas no interior das ditas. É bom, que assim sempre há menos porrada. Pela primavera, as falésias de Handa ficam enfeitadas de famegos, alcídeos e fulmares, mas o miolo da ilha, com a sua vegetação de ervas rudes e flores bravas, está quase só reservado para os skuas. E que não se admire, quem percorra algum trilho mais interior, de sentir o forte bico de um papá mais irritado. Ou de surpreender a imagem arrepiante de um bando de alcaides em banho comunitário num lago de paraíso.



Quatro espécies de moleiros navegam pela costa portuguesa – além do grande, o pequeno, o pomarino, e até o rabilongo - mas todos são difíceis de avistar a partir de terra. Enfim, num cabo, com binóculos, e vento a vir do mar, dará para, mas não é a melhor solução. Uma boa ideia para encontrar moleiros é aproveitar um desses vários passeios turísticos para avistamento de cetáceos. (Enfim, e quem diz moleiros, diz patolas, pardelas, e outras aves marinhas). E até dá um certo estilo. Enquanto o pessoal pitufo se extasia com a imensidão de uma cachalota qualquer, nós podemos contrapor que preferimos qualquer coisa de assim de verdadeiramente grande, viramos nariz ao céu, apontamos para um moleiro, e berramos SKUAAAAAAAA!!!





Quarta-feira, Setembro 03, 2008

Libelinha em Sépia


Libelinha
Sympetrum fonscolombii (fêmea)
Zambujal, Estuário do Sado, Portugal
2008-08-23


Agosto passou sem aqui pousar nenhuma libelinha! Mas não Setembro. E que fique em sépia.

Sábado, Julho 19, 2008

Verbo Fulmar




Fulmar (-glacial ou pombalete)
Fulmarus glacialis
Ilhas Órcades (Mainland) e Ilha de Handa, Escócia
Entre 2008-06-07 e 2008-06-11


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Fulmo quando vomito no bico do planeta,
Nesse ninho tão norte que faz sul o oriente.
Fulmas quando reoitas o vento em voo contente,
Feito pombo gaivoto com ares de borboleta,
E ele fulma – em pescoço espesso de corneta –
Quando rosna urros roucos de amor ao ar silente.
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Nós fulmamos se temos rebico que borrife
De sal quente o mar lágrimo por nós antes bebido.
Fulmais vós se, sem sombra de toque ou de ruído,
Cabriolais cada canto secreto do recife.
E eles fulmam, e fulmam, no vasto mar patife
Em viagens corsárias de fim indefinido.
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E assim verba o fulmar nos prados do oceano,
O meu anjo garrano do velho verbo mar.







O fulmar-glacial faz lembrar uma gaivota, mas não pertence a esta simpática família. É antes um procelariforme, tendo como primos próximos: pardelas, cagarras e painhos; e um pouco mais afastados, os albatrozes. Quem pertença ao clã dos Procellariiformes é capaz de uma habilidade muito engraçada: a de poder beber água do mar para matar a sede! Uma glândula da região nasal permite-lhes expelir o sal em excesso através de um tubo situado sobre o bico. Esta adaptação evolutiva possibilita aos nossos pombaletes passar meses, até anos!, no alto mar, só necessitando de terra firme para trazer à luz do oceano novos fulmarzinhos.





Como qualquer procelariforme que se preze, o fulmarus glacialis nidifica em colónias, gostando de ilhotas e penhascos arriscados. Os lugares onde os encontrámos em nidificação – na ilha de Handa, e no arquipélago das Órcades - eram partilhados com outras aves marinhas, como airos, tordas-mergulheiras e famegos. Os ninhos são elementares, sendo mais recantos encontrados nas falésias que outra coisa.

Os fulmares distinguiam-se, no entanto, por procurar abrigos onde pudessem desfrutar do conforto macio de vegetação. Foi também frequente encontrá-los a passear sobre a «relva» que se atreve a povoar os rochedos marinhos pela Primavera. Enfim, prazeres talvez ditados pela experiência: o fulmar é bicho capaz de vida longa. Um exemplo - nas Órcadas, em 1994 foi encontrado um destes amigos com 50 primaveras em cima, e bem comprovadas pela anilha que trazia na pata!






Os procelariformes têm fama e proveito de serem voadores poderosos. São arqui-estudados os dotes de planador dos albatrozes, capazes de recorrer a técnicas de voo, como a designada por dynamic soaring, que lhes permitem percorrer centenas de quilómetros sem bater meia asa que seja. Todavia o que mais me impressionou no pombalete foi a sua destreza de voador entre penhascos. Sabem tirar partido das correntes de ar ascendente formadas pelas mais ligeiras brisas que embatem na rocha, para planar por aqui e ali, de um lado para o outro, sem quase bater as asas. E - acreditem! - o «quase» aqui, se pecar, é por excesso! Chegam a parar em pleno voo, com as asas quietinhas, junto a um rebordo de um precipício, como se o ar entre o seus corpos e a pedra também fosse sólido. Um arrepio!

Mas não se pense que o fulmar se fica pela beira rocha. Há muito que sabem que o oceano não termina no abismo de um mundo plano! Ave de águas frias, comunga com a gaivota-tridáctila e a escrevedeira-das-neves um feito extraordinário: o de serem os únicos seres até hoje avistados a sobrevoar o norte mais norte do pólo norte sem recurso a avião, helicóptero, ou sequer um cachecol! Brr...





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Segunda-feira, Junho 02, 2008

Em busca da Nessie!




Encerrado até 20 e picos de Junho, ou coisa assim. :)

Segunda-feira, Maio 26, 2008

Grifo d'Estrelas


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Grifo-pedrês, ou grifo-de-rüppell, ou abutre-de-rüppell
Gyps rueppellii

Tejo Internacional, Rio Tejo, Portugal

2008-05-10

Há grifos que – imagine-se! – gostam de se armar em estrelas de Hollywood. O gyps rueppellii, por exemplo, e mais que exemplo, sobretudo. Vê-se-lhe a mania logo na indumentária. Apesar de ser um abutre muito parecido com o “nosso” grifo – o gyps fulvus, que já pousou no Bzz em tempos – distingue-se facilmente pelo trajar. Em lugar da sobriedade da samarra alentejana do nosso já conhecido, este seu primo pedrês opta por um manto sarapintado, digno de honrar as costas de Próspero, ou mesmo de Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore.

A ostentação continua pelo nome. Por muito rara que seja a sua presença em Portugal, o bicho consegue ter três designações no nosso vernáculo, qual delas a mais sonante: grifo-pedrês, ou grifo-de-rüppell, ou ainda abutre-de-rüppell. (Isto, se pudermos chamar vernáculos a nomes que têm a grandeza de um Rüppell lá dentro, esse distinto naturalista alemão do século XIX).

A sua vocação estelar é tão acentuada, que é a ave com o mais alto voo devidamente registado: aconteceu nos céus da Costa do Marfim, e materializou-se em 1973 numa sua azarada colisão com uma aeronave, a mais de 11.000 metros de altitude. Mas o cúmulo ocorreu este ano em Portugal, numa investigação dedicada ao nosso grifo “comum”. Parte de leão do propósito do projecto consistia em acompanhar, com imagens recebidas em tempo real, a nidificação deste abutre. Para o efeito, cientistas-trepadores aventuraram-se pelas escarpas da zona do Tejo Internacional e instalaram uma câmara num ninho em anos anteriores explorado por esta espécie. Pois bem, quem foi que foi “logo” visitar dito o ninho com a câmara, quem foi? Claro, um grifo-de-rüppell, quiçá o único em luso território este ano. Sempre é preciso ter uma lata!

Com transmissão na imensa rede, o projecto foi um êxito que terá ultrapassado os «Big Brother» um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito e nove, e ainda os congéneres «Famosos» um, dois, três, quatro, etc., por aí fora. Aliás, continua a decorrer, já há grifinho, e ao leitor do Bzz que não tenha o voyeurismo de lá ir espreitar, vão-lhe crescer três borbulhas no nariz, todas feias e ao mesmo tempo.

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O grifo-pedrês é uma ave africana, vivendo sobretudo pelas margens sul do Sahel, preferindo, ora a montanha, ora as savanas mais áridas, chegando a aventurar-se pelas bordas do Sahara. Todavia, as suas deambulações trazem por vezes um ou outro indivíduo até à Ibéria, única região da Europa onde conheço ter sido a espécie observada. Encontro num documento de rigor não confirmado a referência a 24 registos na península entre 1992 e 2003. Por que vem até cá, não sei. Talvez esteja nos seus hábitos ancestrais volta e meia dar um salto ao território-mor de Saramago – quiçá à procura de uma boa história onde protagonizar um filme de aventuras. Ou talvez porque cada vez mais lhe é negado viver nos seus territórios africanos.

Com efeito, em países como o Mali, Sudão, Burkina Faso e Níger, passou de abundante para quase ausente. Além da predação humana aos ninhos para fins de entretenimento comercial – entre outros mimos típicos na nossa espécie – um dos principais culpados do declínio da população foi um anti-inflamatório de uso veterinário, o Diclofenac. O gyps rueppellii não o suporta, morrendo ao ingeri-lo a partir de carcaças de gado com este medicadas, prática usual em alguns países que escolheu para habitar. Feitas as contas, o risco de extinção deste abutre está hoje reavaliado pela BirdLife International no já inquietante near threatened. E não fora a existência de populações mais estáveis e protegidas em países como a Gâmbia e a Etiópia, não sei se esta classificação não seria ainda mais severa.

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Seja como for, a aposta do visitante «português» não parece das mais promissoras. O facto é que todas as espécies de abutres luso-residentes atravessam sérias dificuldades de sobrevivência. A encefalopatia espongiforme bovina levou a legislação que obriga à recolha das carcaças do gado que morre pelos campos. Assim, e fora alguns veados e javalis, pouco sobra para aves necrófagas sobreviverem. Como contingência, foram inventados os «alimentadores»: uns locais de acesso restrito, sob regulamento da UE, destinados a fornecerem alimentação a estas aves. (Imagino que não seja Whiskas, mas as tais carcaças depois de revistas e aprovadas por veterinários). Só que há duas chatices. A primeira é que faz depender a sobrevivência dos abutres de um acto artificial, que incluirá orçamentos e demais peripécias administrativas votadas à complicação. O segundo é que, em território nacional, a legislação só prevê a utilização destes alimentadores para quatro espécies: o grifo comum, o abutre-preto, o britango e a águia-real. Será que se aparecer por lá o abutre-de-rüppell para tomar o pequeno-almoço, é multado pela ASAE?

Finalmente, e porque o post já vai longo, quero concluir explicando porque raio as fotografias aqui expostas estão tão mazinhas. (Ora deixa-me cá arranjar uma desculpa...) Bom, é foram mesmo um improviso à paparazzi. Ia num barquinho a motor, a chover escuro e Tejo acima, quando o abutre do senhor Rüppell aparece de repente, ups!, olha-ali-olha-ali-olha-ali! – a modos que foi clique e já está. Não houve tempo para nada: nem exposições compensadas, nem aproximações furtivas, nem rezas aos santinhos, nicles. Foi sem entrevista de charme, sem marcação com o agente artístico, sem acordos quanto ao lado mais fotogénico do bico. Pode ser que para o ano apareça outro e que… Mas, más ou não as fotos, o Bzz também é peneirento, e se viu um grifo-de-rüppell, tinha que deixar aqui testemunho! Ora essa!


Quarta-feira, Maio 14, 2008

Breve Ensaio sobre a Surpresa



Periquitão-de-cabeça-azul
Aratinga acuticaudata
Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal
2008-04-25

Os jardins mais bonitos não são os jardins mais bonitos. São os que escondem surpresas.

Como fadas a saltar de um arbusto. (Por amor de Deus, fadas não, já não há pachorra para fadas…) Ou portas secretas que vão dar a uma ilha desconhecida. (Pois, só faltavam agora era sonhos rococó…) Pronto, está bem, então árvores que mudam de sítio quando os namorados se beijam, para ver se eles se assustam. (Foleiro a rodos…) Então gatos! Mas claro, daqueles gatos que quando sobem a uma árvore vão malhados, e quando descem, saem às riscas. (Certo, está a melhorar, mas…) Anjos com um nariz borracho e uma asa maior que outra!!! (A ideia é gira, mas está muito batida.) Ai ele é isso? Então papagaios! Papagaios ou, melhor dizendo, periquitos. Ou melhor dizendo ainda, periquitões. Ou sendo ainda mais preciso, os periquitões-de-cabeça-azul, ou aratinga acuticaudata, para os amigos! (Ah!...)

A Jota e a Raquel já os tinham avistado o ano passado no Jardim do Tourel, tendo obtido a primeira foto que sei pública desta rapaziada em Lisboa. (Da observação, nasceu um belo e marciano post do Respigo, que convido a ler!) Todavia, Rafael Matias refere que vivem livres na cidade pelo menos desde 1998 (1). Para mim, e para a 1000i, foi a primeira vez que os observámos. Estávamos numa parte baixa do Jardim Botânico, perto do lago seco. Lá ao longe, ouvíamos uma voz que parecia vir duma missa, ou de um altifalante a vender rifas para auxiliar os ceguinhos, mas que afinal era discurso comemorativo do 25 de Abril. De repente, sai um cagaçal digno de três peixeiradas do tamanho de quatro arruaças.


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Ai, isto são papagaios, diz a 1000i! Que não pode ser, que disparate, respondo doutamente. Claro que foi o que bastou para o primeiro mostrar o seu belo bico, e calar o meu!


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Pelo menos dois periquitões! Ali, mesmo ali, ali, ali! Bem à vista. Iam, vinham, espreitavam, pareciam assustar-se, para logo de seguida espreitarem outra vez. Aqueles manjericos têm um olhar esperto! Não fora quase insultuoso para eles, e diria quase humano. Talvez por isso tenham feito este filme, que me dizem ser uma história contada pelo olhar de um periquitão-de-cabeça-azul. Não sei, nunca vi, mas fiquei curioso.

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Também não sei se o periquitão-de-cabeça-azul consegue nidificar em Lisboa – coisa que parece que já ocorre em Barcelona. Rafael Matias (1) refere que não há (havia) evidências de tal na minha cidade. Mas…, 1998…, 2008…, terá a coisa mudado? Quem saberá? Por mim, reparei apenas que iam às nêsperas como qualquer bom alfacinha!
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Fora as nêsperas e a Primavera, não sei como se poderá safar esta ave sul-americana, repleta de Brasil nos olhos. Que alimentos encontra no Inverno de Lisboa? Desenrascar-se-á com as plantas tropicais que descobre pelos jardins da cidade? Quanto sofrerá com o frio, ou com doenças para as quais terá poucas defesas? Não faço ideia. Mas gostaria muito de.


Fiquei curioso em saber se são estes aratinga acuticaudata habituais frequentadores do Jardim Botânico, eventualmente encontrando ali algum alimento e abrigo. Portanto, a 1 de Maio voltei para averiguar a coisa, mas foi uma frustração. Pareceu-me ver um a voar – e voam depressa, os estupores – mas não posso jurar que fosse um deles. Creio que terei ouvido uma ou duas vezes uns pios de papagaio, mas o jardim está cheio de estorninhos imitadores, e havia um helicóptero a peidar-se aos trovões sobre a festa do primeiro de Maio. E, gaita, nem mesmo um papagaio consegue guinchar mais alto que um helicóptero em voo nupcial sobre uma marcha de manifestantes.

Portanto, a 4 de Maio voltámos. O domingo estava calmo, pelo que florescia a esperança. Mais uma vez, pareceu-nos entrever um, mas foi tão depressa, caraças… Mais tarde, passaram três aves em berraria talvez de papagaio, mas não podiam ser os mesmos, porque o rabo era curto, afiançou a 1000i.

Esperámos mais um bocado. Ela fartou-se, e foi arranjar lanche. Alguns minutos passaram. De súbito, um movimento suspeito! Ops! Está naquela árvore! Pé ante pé… Vou vê-lo sozinho, e a pensar bem feita, bem feita, bem feita, que foste ao lanche e perdeste o periquitão! Máquina fotográfica a postos… Atenção!!! Olhó passarinho!!! Só que não era um piriquitão... Antes um pombo-torcaz. Um pombo-torcaz? Que raio, acho que nunca antes tinha visto um pombo-torcaz em Lisboa!

Dizia, os jardins mais bonitos não são os jardins mais bonitos. São os que escondem surpresas. Ah, pois!…


Pombo-torcaz - columba palumbus - (mesmo local, 2008-05-04)


(1) Matias, R. 2002. "Aves Exóticas que Nidificam em Portugal Continental". Ed. do Instituto de Conservação da Natureza. Lisboa.


Segunda-feira, Maio 05, 2008

O Incógnito Jardineiro


Coruja-do-mato
Strix aluco
Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal
2008-04-25


É uma questão de sobrevivência. Tal como uma felosa, uma carriça, ou uma cotovia, qualquer jardim em Lisboa, se minimamente inteligente, esforçar-se-á por passar em cores despercebidas. Não tanto por poder ser avistado por algum gato, mas antes não vá construírem-lhe em cima um hotel, um condomínio fechado, um casino, ou mesmo um campo de golfe. Arme-se um jardim ao bonito e arranjadinho, e rapidamente verá chegar os apóstolos do betão com os seus cimentos, andaimes e alcatrões. Atente-se ao Parque do Tejo, hoje em triste ameaça. Jardim que queira continuar vivo em Lisboa, o melhor que tem a fazer é fingir-se tão moribundo e javardolas como a cidade que habita. Por exemplo, o inteligente Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, sito à Rua da Escola Politécnica. Houvesse Charles Darwin vivido hoje, e aportado à cidade de Ulisses em lugar das Galápagos, e ter-lhe-ia dedicado pelo menos seis capítulos na «Origem das Espécies».
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Entrada do Jardim Botânico - Alameda de Palmeiras

A entrada faz-se por um portão quase de quartel, bonito, quase pomposo, com duas esferas armilares de vigia às dobradiças. Leva-nos a um parque de estacionamento guardado por duas filas de palmeiras tão altas e esguias que podiam passar por balões de hélio presos por uma guita. Uns cinquenta metros de alcatrão gasto mais à frente, deparamos com um outro portão, agora mais em modesto. Aí, como que fingindo ser o acesso para um segundo parque de estacionamento, enfrenta-nos um quiosque branco-fatela, que vende entradas a euro e meio. Pois pague-se. Passada esta portagem, vislumbram-se umas edificações desmazeladas, qual tetraneto de visconde arruinado. Prossiga-se. Prossiga-se, que por quatro hectares de terreno – em lugar de fia-tes, for-des e mercê-des – nos aguardam 1493 espécies de plantas e fungos vindos dos trinta e um cantos do mundo. E ainda um herbário, um banco de sementes, e agora até um borboletário – este último, com direito a imagens em directo na internet e isso tudo!

Metrosiderus excelsa (?) - origem: Nova Zelândia


Tal e qual Lisboa, o Jardim Botânico é uma mistura de beleza e desolação. A mais ínfima planta sabe insinuar-nos pelo menos cinquenta histórias de coragem e pulcritude. Árvores erguem-se até deixarem insignificante a perfeição de um palácio renascentista. Ao fim da tarde acende-se uma orquestra de melros inspirados, estorninhos vanguardistas, pintassilgos pop e chapins hip-hop, cortada, aquis e aléns, por solos de verdilhões e de chamarizes, trepadeiras e toutinegras, e sei lá por que mais outros virtuosos.

Estorninho-preto (sturnus unicolor) sobre erythrina caffra (origem: África do Sul)

Todavia, há também um antigo observatório astronómico a desfazer-se em podre, como se fora mais um prédio devoluto, ao bom gosto da câmara municipal. E cursos de água secos e desgraçados, que saltam sobre cascatas secas e desgraçadas, e se desfazem num laguinho ainda mais seco e desgraçado. Consta que o líquido da vida não chega para regar todas as plantas. Turistas interrogam-se, mas isto não é um jardim? Não foi um jardim? Já não é um jardim? Querida, será que a agência afinal nos pôs em Bagdad? Não podia ser mais perfeito. Que empreiteiro se lembraria de construir ali um centro comercial? Porque haveria, se o jardim já se metamorfoseou numa coisa parecida com uma obra embargada? O mimetismo do Jardim Botânico é prodigioso. Um milagre da Evolução e da Sobrevivência.


Lago seco no Jardim Botânico


De onde virá a sageza que têm permitido ao Jardim Botânico passar despercebido, assim fugindo ao destino de ser hotel, casino, condomínio, ou outro desses tijolos com que se fazem os galinheiros de luxo? Eu acho que a coisa vem da coruja-do-mato que lá habita. Que outro animal associamos mais ao saber e à docência? Além do mais, as corujas são tudo o que um jardim precisa para sobreviver em Lisboa: ter a modéstia de passar despercebido, fazer voto de silêncio, ah, e caçar ratos, que é o que não falta.

Coruja-do-mato (strix aluco) no Jardim Botânico


Eu confio na strix aluco que encontrámos a proteger o jardim. Era quase lusco-fusco quando ela começou a abrir os olhos com a sua calma velha e catedrática. Apareceu um gaio todo nervoso, a gritar-lhe aos ouvidos, a abanar o ramo onde estava pousada, a vociferar que a matéria não atrai a matéria na razão directa das suas massas, e ainda menos na inversa do quadrado das suas distâncias. Que afinal o Sol gira é em torno de Marte, e Marte saltita nos anéis de Saturno, e que os anéis de Saturno enrolam-se em torno de buracos negros, negros, negros, tão negros como a noite que se aproxima. Mas a coruja-do-mato, nada. Dirigiu-lhe não mais que meio olhar de meio olho ensonado. Serena, continuou a esperar pela clareza da escuridão.


Gaio (garrulus glandarius) tentando afugentar a coruja-do-mato


Adivinho que, chegada a noite, a coruja-do-mato voará palavras de coragem e resistência a cada planta. Talvez dance pela chuva. Talvez imagine ardis para roubar a água que um dia torne a encher as cascatas secas. E carvão para aquecer as estufas. E pássaros para aquecer o coração das árvores. Estou desconfiado que naquela coruja habitam as almas dos jardineiros históricos do Jardim Botânico – Goeze, Daveau, Cayeux e Fernandes – os homens que, entre 1873 e 1944, com paciência e saber, regaram este fado escondido de Lisboa.


Homenagem ao jardineiro EDMUND GOEZE


Hoje não sei quem é o jardineiro do jardim Botânico. Tem directores, tem muita gente na página dos contactos, até tem uma liga de amigos, mas não sei se tem um jardineiro. Não sei se tem um homem como Goeze, iniciador da obra, «jardineiro hábil, instruído e verdadeiro homem de ciência», na recomendação de Conde de Ficalho. Ou como Daveau, que lhe acrescentou ruas, riachos e cascatas (ao seu tempo, com água), fazendo crescer o jardim até ao mérito de ver o seu vencimento aumentado para 800$000 réis anuais! Ou como Fernandes, que vindo de modesto herborizador, foi o primeiro português a ocupar tão distinto cargo, ainda que sem direito a aumento de vencimento pela promoção.



Tenho pena não se saber quem é o jardineiro. Não será importante saber-se quem é o jardineiro do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, aquele sito à Rua da Escola Politécnica? O continuador de Goeze, Daveau, Cayeux e Fernandes? Gostaria de ouvir esse profissional. Saber dos seus projectos, das suas dificuldades, dos seus sonhos e das suas mágoas por não conseguir fazer tudo.

E daí, talvez seja melhor permanecer incógnito, o jardineiro. De outro modo, poderia chamar a atenção dos mundos. E com ela, obter solidariedades, ajudas e fundos. A água poderia finalmente chegar a todas as plantas. Tornar a borbulhar nas cascatas, encher o laguinho, e matar a sede aos pássaros. E o jardim perder, enfim, aquele seu aspecto desmazelado. Isto é, aquele seu dom de argúcia e prudência. Aquilo que. Aquilo que o salva de. Para bom enten.

Não é verdade coruja-do-mato?

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Segunda-feira, Abril 28, 2008

Hora do Lanche na Foz do Trancão, dois



Maçarico-galego
Numenius phaeopus
Foz do Trancão, Estuário do Tejo, Portugal
2008-04-26
...e caranguejos!

Hora do Lanche na Foz do Trancão, um


Garça-branca (-pequena)
Egretta garzetta
Foz do Trancão, Estuário do Tejo, Portugal
2008-04-26

Peixinhos...

Terça-feira, Abril 22, 2008

Trinar Da Terra



Trigueirão
Emberiza calandra (antes, miliaria calandra)
Ponta da Erva, Estuário do Tejo, Portugal
Entre 2008-03-09 e 2008-04-13


Por onde diacho andaram metidos estes
bichos o Inverno todo? Durante o frio, nem a mais leve brisa de um único se entrescutou pela lezíria. Porém, agora que as terras se forraram de verde para aquecer o coração das ovelhas, e as flores das giestas tilintam nos céus cinzentos deste Abril, ei-los e ei-los e ei-los e ainda mais ei-los! Ei-los tão ferozes como cogumelos, tão audazes como papoilas. Ei-los em cada poste de cerca, em cada tecto de arbusto, a soltar o seu canto desafiador e garrido, que lembra um pífaro a imitar o arranque de uma saudosa 4L. O trigueirão parece a fábula de um passarinho que queria ser galo, mas em que a moral correu ao contrário, e em lugar de castigo pela vaidade, floriu-lhes um pulmão do tamanho da manhã e tarde juntos. Raios os partam: quem os cala pela Primavera? Ninguém, ninguém e mais ninguém, e mil vezes ainda bem!


E se os trinados da emberiza calandra surpreendem pelo fornimento, outrossim o seu próprio corpo não lhes deve migalha se atendermos a que falamos de um passarinho… Quem não os conheça, diria que viu uma cotovia campeã olímpica de halterofilismo. Sob as suas elegantes penas desenhadas em tons de terra, e do seu peito em areia riscada, enche-se um corpo de garbo que pode atingir as 55 gramas, enfim, belo cabedal para uma escrevedeira! Acresce-lhes um bico robusto e grosso que guarda o seu sinal físico mais singular: um dente maroto, algures a meio, que exibe sem cáries sempre que as goelas lhes soltam a trova.



Claro que o dente não é um verdadeiro dente, antes um prodígio da sageza da evolução e da versatilidade da queratina. Será mais como que um bico posto a meio do bico, saído duma mandíbula para encaixar na outra com a perfeição de uma amêijoa. E não deixa de ter piada, este dentinho malandro, e sobretudo – imagino – utilidade na sua dieta favorita: sementes e cereais, insectos e aranhiços. Um regalo!



O trigueirão não é pássaro para bosques e cidades. Prefere pastagens, searas e horizonte. Em Portugal, onde é ave residente, fez do Alentejo o seu domínio. Mas não só: também na lezíria da Ponta da Erva encontrou um lar, um castelo, e um jardim, onde festeja agora a Primavera com cartaxos, alvéolas-amarelas e garças-vermelhas. E por aqui me fico em localizações, que no avesdeportugal.info está muito bem explicada a sua distribuição no nosso país, é só ir lá espreitar!



De Lisboa a Vladivostoque, um pouco por todo o caminho será possível encontrar o canto valentão da emberiza calandra por tudo quanto seja Primavera em campo aberto. Além de quase toda a Ásia e Europa, também o norte de África se entusiasma com a sua presença. Só no nosso continente, a IUCN estima uma população entre 16 e 44 milhões de indivíduos, sem que tenham sido descobertos sinais evidentes de declínio. Todavia, mal passem estes curtos meses da esperança, e logo o agora emproado trigueirão regressará à sua estação invisível. Pelo que, quem o queira ver ainda este ano, que se despache: não é na internet, mas no mundo real que vale a pena escutar-lhes o desafio!


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