O Aviso do Grande Skua
Moleiro-grande (ou alcaide)
Stercocarius skua
Algures no mar entre St Margaret's Hope e Gills Bay, arquipélago das Órcades, Escócia
2008-06-10
(Foto gentilmente roubada à 1000i)
Antes de tu chegares, foi meu nome inventado
Por gaivotas famintas a guinchar de terror.
E não só o meu nome, o meu bico e o pânico
Eram o mesmo sangue na noite das pardelas.
Antes de tu chegares, um deus velho pintou-me
As penas cor de terra, a cor férrea das mães.
E eu, sem que ele notasse, deitei neve nas asas
Para elas ficarem com o trovão das montanhas.
Antes de tu chegares, era a mim quem o diabo
Convidava a jantar. Hoje é a ti, muito bem…
Mas sabe que fui eu quem lhe ensinou o jogo
Dos dados em que as pintas são olhos de patolas.
Depois de tu chegares… Não, nem a ti eu temo:
Se me vieres ao ninho, ai furo-te a cabeça!

Já foi o latim, já foi o francês, hoje é o English. É mesmo assim: quando as pessoas querem dizer coisas sábias e importantes, acrescentam palavras em inglês ao discurso. De preferência, escolhem uma daquelas acabadas em ing e boçam-na ao final do parágrafo com dentuça a condizer. Blá, blá, blá, downsizing – e fazem o sorriso grave de uma beringela recheada com miolos de galinha. Blá, blá, blá, restyling – e chiam em risada aguda, enquanto rodopiam o mindinho direito para cima, e abrindo tanto os olhos que as moscas até fogem. Blá, blá, blá, e tal e coisa e coisa e tal e, truca, veryveryimportanticializing – e etc. por aí fora.
A coisa irrita-me. Sempre que a presencio, logo lamento não dispor de uma pistola de pozinhos de comichão – pum, já estás, vais ficar aí numa de coçatializing até à hora do lanche. Só que – para vergonha minha – também já me aconteceu deixar fugir a boca para a inglesite. Foi com os sacanas dos moleiros. Não é que não goste do vocábulo «moleiro», mas confesso, prefiro o termo inglês para estas aves: skua. Ou melhor escrevendo: SKUA!!!
Digo em meu abono que estou convencido que esta palavra não foi inventada por ingleses, nem por nenhum homem, mas por gaivotas. Imaginemos ao mar largo um bando de argênteas baloiçando-se em ondas suaves, azuis e alentejanas. De repente, um moleiro imenso e canalha pica sobre elas. As pobres respigam em pânico como gotas de um lago sobre o qual caísse uma locomotiva. E que gritam elas enquanto fogem? SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! SKUA!!! Pois…

Um bom local para fazer observação de aves marinhas é a bordo de um ferry. Não só têm bar e WC, como é possível aceder-se a um ponto elevado da embarcação e observá-las em voo visto de cima. Quando calha a ser um moleiro-grande (também dito alcaide) é uma festa. Primeiro, por que são grandes, vêem-se bem. Segundo, porque nos arrepiamos com as penas brancas que lhes garreiam a folha superior das asas. E terceiro, porque é uma variante. Em lugar de temermos pela sorte da ave se o navio lhe embater, tememos pela sorte do navio se o moleiro se chatear.
Os moleiros escolhem ilhas pouco frequentadas para nidificar. Todavia, ao contrário das outras aves marinhas, preferem ter ninho, não nos recifes, mas no interior das ditas. É bom, que assim sempre há menos porrada. Pela primavera, as falésias de Handa ficam enfeitadas de famegos, alcídeos e fulmares, mas o miolo da ilha, com a sua vegetação de ervas rudes e flores bravas, está quase só reservado para os skuas. E que não se admire, quem percorra algum trilho mais interior, de sentir o forte bico de um papá mais irritado. Ou de surpreender a imagem arrepiante de um bando de alcaides em banho comunitário num lago de paraíso.

Quatro espécies de moleiros navegam pela costa portuguesa – além do grande, o pequeno, o pomarino, e até o rabilongo - mas todos são difíceis de avistar a partir de terra. Enfim, num cabo, com binóculos, e vento a vir do mar, dará para, mas não é a melhor solução. Uma boa ideia para encontrar moleiros é aproveitar um desses vários passeios turísticos para avistamento de cetáceos. (Enfim, e quem diz moleiros, diz patolas, pardelas, e outras aves marinhas). E até dá um certo estilo. Enquanto o pessoal pitufo se extasia com a imensidão de uma cachalota qualquer, nós podemos contrapor que preferimos qualquer coisa de assim de verdadeiramente grande, viramos nariz ao céu, apontamos para um moleiro, e berramos SKUAAAAAAAA!!!





